sábado, 17 de maio de 2008

Era uma Vez

Era uma vez uma velha, andrajosa, suja, feia, que caminhava pelas ruas da cidade. Pedia esmola pelas esquinas, mendigava um pedaço de pão de porta em porta, arrastava-se rua fora, levando atrás de si os seus trapos velhos, imundos, cheios de coisa nenhuma. Os pés, encardidos, pisavam a laje fria, sem nunca conhecerem o calor nem o conforto, viajavam de estrada em estrada, sem parar, sem descansar, sem deixar de caminhar.

Era uma vez uma velha mendiga que caminhava pelas ruas de todas as cidades do mundo sem pertencer a nenhuma delas. Rastejava, gritando pragas e profecias aos quatro ventos, sem que ninguém a ouvisse ou olhasse duas vezes para ela. Era uma pedra no meio de tanta gente apressada, multidão sem rosto, que se desviava para não esbarrar nela, que praguejava entredentes quando se lhes atravessava no caminho, pedindo dinheiro, chorando a sua loucura e a sua fome.

Dizia-se que, em tempos, tinha sido bela, e jovem, e cheia de vida, e de sonhos e de ilusões, mas que as perdeu todas num rasgo de insanidade e precipitação. Farta de uma vida rodeada de obsessão, gente obcecada, trabalhos árduos que não levavam a lado algum, sem propósito e sem cadencia lógica, cansou-se de tudo e partiu, não se sabe muito bem para onde. Vagueou, correu mundo à procura de coisas novas para ver, para experimentar, para saborear e tocar, correu todas as cidades do mundo à procura da sua, à procura de alguma cura milagrosa para a insatisfação, à procura de um raio de luz que iluminasse o seu mundo escurecido pelas traças e pela treva. Largou tudo e partiu. Ninguem a seguiu.
Um dia, deu por si, sozinha, sem nada, sem ninguém, com a fome e saudades de casa, com a angustia que a tinha levado a partir transformada em arrependimento e nostalgia. O que eu perdi, o que deixei para trás, o que agora não é meu.

E voltou. Mas já ninguém a conhecia, ninguém a queria, ninguém a reconheceu. Continuava todo o seu mundo antigo, cheio de formigas atarefadas a volta da obsessão de sempre, à volta das futilidade habituais. Ninguém se lembrou dela. No seu lugar, havia um outro alguém que tinha de facto gosto pelo que havia fazer, alguém que não questionava, nem lamentava, nem chorava. Porque queixar-se, verter lágrimas é perda de tempo.

Foi-se embora, para nunca mais voltar. Enlouquecida pelo tempo, pelo esquecimento, dos outros e de si, vagueou de cidade em cidade, de rua em rua, à procura não sabe bem de quê, do que ganhou, que foi nada, e do que perdeu, que foi tudo. Deambula pelas ruas escuras, enegrecidas pelo fumo, e pelas frustrações de milhares que a pisavam, sem deixarem qualquer marca. Ela, a velha, conhecia-as todas, de cor. Carregava-as todos os dias.

Era uma vez uma velha, descalça, moribunda, coberta de farrapos. Sentada na esquina, estica a mão, carcomida pelas voltas da terra, escurecida pela existência sem tecto, pede a bondade alheia de lhe deitarem umas migalhas.
Não. Pede ajuda, mas não a quem passa, mas a quem observa, de lá de cima, quem passa na rua. Pede ajuda como último laivo de desespero, de angústia, de tristeza, de quem não tem mais nada.

Era uma vez uma velha, andrajosa, suja, feia, que caminhava pelas ruas da cidade. E um dia nunca mais ninguém a viu. Porque ninguém lhe sentiu a falta.






AS

1 comentário:

Anónimo disse...

Gostei da dissertação metafórica :) lembrou-me as que pedem na igreja de cascais, sem pernas, mas verniz vermelho nas unhas. keep on ;)

Jorge Batista