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quinta-feira, 18 de março de 2021

Meanwhile In Ergástulo - Parte Vigésima Terceira

No início, não era o verbo, mas tinha alguma graça. Agora não tem graça nenhuma.

Vim parar a um antro que encerra em si muito do espirito medieval. 
Uma das manifestações deste conceito é o da caça às bruxas, que consiste numa autêntica expedição para encontrar um culpado quando as coisas correm menos bem. Aliado a esta idiossincrasia, manifesta-se também uma ideia imutável e transversal a todos os habitantes, ainda que temporários, deste lugar: é proibido perder uma ação.

Ora, não é preciso ser licenciado em Direito pela melhor faculdade do mundo nem ser advogado há décadas para saber uma verdade bem básica e mais que empírica: nem todas as causas são vencedoras. Aliás, até nas causas que, à partida, parecem fáceis e de ganho mais que certo, podem as coisas não correr como esperado e tudo descambar. 
Não propriamente por dolo ou negligência do mandatário, mas por um sem número de outros fatores que concorrem diretamente para o insucesso. 
Toda a gente já sai das escolas de Direito com esta noção. 
Se não saem, aprendem no estágio. 
Se mesmo assim não interiorizam, aprendem com a prática. 
Se nunca se depararam com tal fenómeno, não são juristas nem advogados.


Pois que fazendo o somatório de todo o conteúdo supra, conclui-se que o local onde exerço a minha nobre profissão está cheio de pessoas a) que chumbaram na agregação e andam para aqui há anos a cometer crimes de procuradoria ilícita e b) não têm noção da realidade porque, a bem da verdade, nunca exerceram, de facto, a profissão porque toda a vida se sentaram em cima do trabalho dos outros à espera que chova dinheiro.


Portanto, nesta casa, perder processos é, em si, toda uma situação dolorosa e sinuosa para o titular desse processo. 
É um procedimento de culpabilização, de escrutínio de falhas e males menores, de humilhação coletiva. É um tempo leproso, em que o infetado fica apartado da vida societária, enquanto é olhado de lado por toda a gente. 
É um tempo conturbado, porque são tomadas decisões precipitadas e descabidas, com o único intuito de reagir à perda, de correr atrás do prejuízo, coisa mais portuguesa não se vê por aí. 

É, basicamente, uma angústia e um descrédito total e absoluto para a pessoa, que se vê truncada das suas capacidades jurídicas e julgada em praça pública por pessoas menos aptas que ela.

Mal comparando é todo um walk of shame de Cersei Lannister, com direito ao badalo ao início, anunciando aos quatro ventos o infortúnio jurídico, até ao arremesso de fruta podre e porcaria por toda a gente que a rodeia.


A não ser, claro, que o desafortunado seja, como está bom de ver, aquele (aquela) que, no mais das vezes, faz o papel de carrasco. 
Aí, tudo é feito para encobrir o mal feito, escondendo de todos o sucedido, muitas vezes com a conivência da chefia. 
Aí, não há badalo, nem arauto, nem arremesso de vária ordem; só há silêncio. 
O que não deixa de ser deveras curioso, porque já deixa de existir a premissa de que não se podem perder ações para passar a coisas que acontecem. Aí, já não há surpresa.


Poderia discorrer longamente sobre a estupidez humana, em especial a que grassa neste locado. 
Poderia discorrer ainda mais longamente acerca da injustiça da situação, que encerra problemas estruturais gravíssimos que ninguém pode corrigir. 
Poderia alongar-me acerca do prejuízo que causa à saúde mental e laboral dos que cá habitam.

Mas não. Já não quero saber. Só acho que isto deveria ficar documentado, por isso aqui fica.




Foi aqui que vim parar.


terça-feira, 9 de julho de 2019

Meanwhile in Ergástulo - Parte Vigésima Segunda

Neste antro do senhor onde exerço a digna profissão de patrocínio forense de capitalistas e outros pobres de espírito que tais, existe, como em muitos estabelecimentos da estirpe, a regra oficiosa que à sexta-feira o traje pode ser mais descontraído, desconsiderando, apenas por um dia, a vestimenta fato-e-gravata e outros formalismos parecidos.

Ora, toda a santa sexta é vê-los com os bracinhos de fora das camisas, com calças de ganga, com blazers coloridos, com sapatos de atacadores.
Toda a gente respeita muitíssimo este costume e apenas o quebram quando sucede terem diligências judiciais ou reuniões com clientes novos porque, com os antigos, está-se tudo positivamente a cagar e vão como estão e mai nada.

Perguntando o moço estagiário ao seu ilustre patrono se poderia também aderir a esta onda descontraída que às sextas-feiras bate nas cabeças destas nabiças, foi-lhe respondido, categórica e terminantemente, que não, não senhor, não podia. Que essa regra só se aplicava aos advogados.  Que ele tinha de manter a postura. Que poderia aparecer aqui um cliente de repente e sem aviso e que ele não poderia estar descomposto. E que, portanto, tirasse daí o sentido, que só os crescidos é que podem brincar.


Escusado será dizer que achei isto a cúmulo da pouca vergonha.

Quer dizer, todas as sextas-feiras desta vida sou obrigada a levar com o mau gosto desta gente, que não sabe fazer combinações de absolutamente peça de roupa NENHUMA que não seja uma camisa às riscas com uma gravata às pintas, que veste SEMPRE as mesmas calças de ganga, que não sabe que um blazer cor de cagalhão NÃO FICA BEM COM NADA, mas não posso levar com um puto vestido sem gravata porque, deus nos livre, parece mal.

Todas as benditas sextas-feiras sou forçada a ter que levar pelos olhos dentro com os pelinhos do peito destes gajos porque têm as camisas abertas até ao umbigo e a ter de suportar os pelinhos dos bracinhos a apanhar sol, mesmo que não vejam sol desde 1974, mas, cruzes credo!, não posso ver o miúdo nos mesmos propósitos porque é preciso ter postura.

Todas as sextas-feiras sou coagida a passar por esta gente, que se trata entre si como se fossem duques de qualquer coisa e vivessem na corte do Rei Sol, vestida como se estivessem em casa a coçar a micose e a tirar as cuecas do rêgo, mas o miúdo não pode porque cenas.

Vale a pena dizer mais alguma coisa?






Foi aqui que vim parar.

terça-feira, 23 de abril de 2019

Meanwhile in Érgástulo - Parte Vigésima Primeira

Na senda do queixume infra, poderá pensar-se que sou, ao fim e ao cabo, uma ingrata da quinta casa e uma preguiçosa sem vergonha.

Isto porque sua excelência o patronato acabou, afinal, por nos dar a tarde de quinta-feira santa.


Não sem antes, como está bom de ver e daí o presente queixume, nos lixar o esquema, bem lixadinho.

Foi o povão todo almoçar, a arrastar-se e de trombas por sermos as únicas avestruzes a trabalhar naquela tarde.
Foi tudo para o café arrastar-se mais um bocado porque a vontade de trabalhar não existia e nada foi feito para a fazer regressar.

Estávamos tristemente a regressar quando nos salta o velho patrão ao caminho.

'Que estão a fazer aqui?', pergunta aquela andorinha idosa. Estamos a vender perus, Sr. Dr., como está bom de ver. 'Nós vamos fechar à tarde, ninguém vos avisou, ninguém vos disse nada?', questiona com algum espanto.

Não, estupor de velho, quem é que haveria de nos avisar que temos a tarde livre senão o próprio chefe dos macacos, não me dizes? E depois ainda põe aquela cara de fronha enrugada, como quem não tem nada a ver com o assunto.

E assim se perde, à vontade, hora e meia de mini-férias.


Ser velho é muito triste, é só o que tenho a dizer.



Foi aqui que vim parar.

segunda-feira, 4 de março de 2019

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Meanwhile in Ergástulo - Parte Décima Sétima

O patronato nesta casa anda louco, como é possível concluir do estudo superficial de episódios recentes.

Hoje, aquele que manda mais chamou-me para me entregar um processo que queria que tratasse.
Um processo cheio de merda, para falar bem e depressa, com mais pontas soltas que cabelos meus ao vento, com documentos desirmanados e porcaria tanta que dava para encher uma fossa séptica.

No entanto, o sentido de humor daquela múmia que habitualmente nem existe, estava em alta.

Com um sorriso desmesurado, passou-se a pasta para a mão, dizendo:

 - Toma, desembrulha!, enquanto mandava para o ar a sua gargalhada característica.






Foi aqui que vim parar.

Meanwhile in Esgástulo - Parte Décima Sexta

Aqui há dias, estava todo o povão desta casa a almoçar na sala da copa quando entra a segunda figura do patronato.

 - O que é que estão a comer, que cheira tão bem?, grita para o ar com ar de louco demasiado bem disposto, como se tivesse acabado de empoar o nariz.

E vá de enfiar - e isto é literal, não é exagero - o nariz em cada um dos pratos, tecendo todo o tipo de comentários agradáveis sobre as iguarias em cima da mesa.

Antes de ir embora, completamente estouvado pelo próprio entusiasmo, remata: Essa comida que vocês trazem, é toda confeccionada domesticamente, não é? (Não, filho, todos os dias vamos buscar comida à fábrica, a confecção é puramente industrial.)


Voltámos, portanto, ao tempo das girafas em lingerie, ficando todos aturdidos com a bizarria que acabámos de assistir.






Foi aqui que vim parar.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Meanwhile in Ergástulo - Parte Décima Quinta - Vol. 2

Chegados a dia 21 de Dezembro, somos, sim, a única empresa/agremiação de gentes assalariadas neste prédio, nesta zona, nesta cidade, neste distrito, neste país, que não teve celebração colectiva de Natal.
Já se sabia, não causa surpresa, mas não é por isso que tem de ser aceite de bom grado.








Foi aqui que vim parar, a este cesto de fuínhas.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Meanwhile in Ergástulo - Parte Décima Quinta

Este ano, tal como no anterior, o Natal corporativo deverá ser celebrado só depois da quadra propriamente dita.
Já não devia constituir qualquer surpresa, mas, mesmo assim, é chatinho, vá.
No ano passado, celebrámos o Natal a 27 de Dezembro. Porém, no dia 13 já tínhamos o convite feito e já sabíamos o que nos aguardava.

Este ano, está de gesso. Nada nesta casa indica que se aproxima a melhor época do ano.
Nem uma única luzinha, nem uma árvore de Natal no tamanho de um apara-lápis, nem uma coroa na porta, nem gente contente, nem uma oferenda de Bolo-Rei.

Nada.
Nadinha.
Raspas e vento.


Tudo porque o patrão odeia o Natal, portanto estamos todos proibidos de mencionar a temática e de andar por aí pelos cantos a pedinchar almocinhos e coisas doces.
Por outro lado, para a semana só se trabalha dois míseros dias, oferta do patronato.



Não se pode ter tudo, não é verdade?


terça-feira, 27 de novembro de 2018

Meanwhile in Ergástulo - Parte Décima Quarta


Quando os meninos se portam mal, são castigados em conformidade.
Da primeira vez que o patrãozinho deu pela ficha da chaleira enfiada na tomada, inventou um exercício de simulação de incêndio e fez-nos descer 6 lanços de escadas a pé. Tudo para tomarmos consciência que podia haver um incêndio por causa da mania de deixar as fichas nas tomadas.
Como não foi ouvido, tomou esta medida muito madura e extremamente eficaz.


Foi aqui que vim parar.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Meanwhile in Ergástulo - Parte Décima Terceira

Entretanto, chegaram-nos dois estagiários (que a que só fazia recados já foi à vida dela, como está bom de ver) e tem sido uma alegria.

São tão verdinhos, tão verdinhos que quando olho para eles até me admiro como não usam chucha.
Acabadinhos de sair da faculdade, pairam por aqui com aquele ar assustado, mas extremamente competente, de quem vem trabalhar todos os dias de fato e gravata e usa botões de punho, mas depois não sabe distinguir uma fotocopiadora duma reclamação de créditos.

Andam sempre os dois juntinhos para todo o lado (qualquer dia dá romance, estou mesmo a ver), chegam juntos, saem juntos, lancham juntos, almoçam juntos, fazem tudo juntos, sempre lado a lado.

Parecem, portanto, duas testemunhas de Jeová a passearem-se pelos corredores, espalhando a palavra do senhor.

E eu sou má, obviamente olvidando o meu ar de parva quando tinha a idade deles.


Não presto.

Das Bizarrias da Profissão

Tenho para mim que coisas inéditas ou simplesmente parvas que se passam na Judicatura só se passam comigo.
É apenas uma sensação que tenho, vá, mais que não seja porque não oiço ninguém comentar que lhes sucedem factos tão estranhos no seu dia-a-dia profissional como os que às vezes sucedem à minha pessoa.

Por exemplo, na segunda-feira passada, uma qualquer secretaria de Tribunal de uma terra macaca que não vale a pena mencionar qual é, mas que fica ali para a linha chique e que em tempos já foi governada por um senhor condenado por práticas pouco lavadas no que a impostos diz respeito, contactou com a minha pessoa, inquirindo-me, directa e desavergonhadamente, se o julgamento, agendado para dali a dois dias e no qual represento o autor, sempre se iria realizar e se não quereriam já as partes chegar a acordo.

Absolutamente abismada com a questão que me estava a ser colocada, ainda balbuciei umas coisas incoerentes, tipo babuína que no fundo sou, mas arranjei forma de perguntar por que motivo estava o Tribunal a fazer esta pergunta dois dias antes do julgamento.

É que normalmente, e o meu público que é quase todo ele profissional forense não me deixará mentir, os funcionários só rondam as partes como se fossem abelhas de volta do pote do mel à procura de um acordo quando já se fez a chamada e estamos a, vá, dez minutos de entrar para a sala.

É verdade que alguns funcionários são mais chatos que outros, também é verdade que alguns juízes são mais insistentes que outros na busca do acordo.


Mas este desplante todo não é costumeiro.

Maneiras que a resposta que obtive à minha ingénua pergunta "porque é que me está a telefonar com perguntas de merda se podemos resolver isto daqui a 48 horas?" foi: "porque a sra. dra. Juiz quer que a gente pergunte".

Face a isto, não tive coragem para mandar ninguém bardamerda, como me estava grandemente a apetecer.

Ou melhor, o que deveria ter dito era que esperasse pelo dia da diligência, calona da gaita, que logo se via se havia acordo ou não.
Bem sabemos que fazer julgamentos é cansativo, há que os preparar, ler as peças, estudar, tirar notas, fazer o trabalhinho de casa, no fundo. Já para não falar das deslocações, dos Tribunais no fim do mundo, dos cafés de merda que gravitam em volta destes edifícios, que encontrar um café decente nas imediações dos Tribunais é uma tarefa difícil, mais a conversa de merda dos clientes, a conversa de merda dos colegas, a conversa de merda de toda a gente, os tempos mortos, as intermináveis esperas. Para quem, depois, ainda tem que fazer a sentença, estudar de novo, rever o que foi dito, fundamentar a sentença ainda é pior, porque o trabalho continua muito depois de ter acabado o julgamento.
Não obstante, acho que, por menos por ora, não se apontam armas às cabeças de ninguém para seguirem a carreira da magistratura e, em primeira e última análise, só segue essa vida quem quer, portanto... vá, temos pena.


Mal comparando, esta chamada supersónica é como se fosse a um qualquer supermercado e ainda antes de ter feito as compras já estar numa caixa a pagar.

Onde é que já se viu esta pouca vergonha?





quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Meanwhile in Ergástulo - Parte Décima Segunda

Não contentes com o facto não haver ninguém para passar a vida na rua a fazer coisas que os outros não querem fazer, arranjou-se uma estagiária para o estaminé.

Estagiária é como quem diz, uma moça que, desgraçada, está a tentar acabar o curso na faculdade e vem para aqui fazer uma perninha.

Perninha é como quem diz ajuda das grandes, que esta gente é toda barriguda (como se diz na minha terra) e não quer andar a gastar solas dos sapatos na rua a saltar de conservatória em conservatória, de serviço de finanças em serviço de finanças, de SEF em SEF ou de uma coisa qualquer quando lá pode ir a criadagem.

Desta vez, criadagem não é como quem diz, é mesmo literal, porque eu bem oiço a pobre criatura a destruir quilos de papel na sala ao lado da minha.
Ou então, não a vejo de todo e já sei que está na rua em serviço.

Portanto, foi para isto que se contratou uma estagiária, para destruir papel e andar à chapa do sol a correr de um lado para o outro a pedir mais papel nas repartições competentes.


A velha que em mim habita tem vontade de dizer, olha que coisa, também tu nos primeiros anos não fazias mais nada senão andar na rua a fazer os recados dos outros.
Ao que responde a jovem que também cá mora, e que felicidade é ver que as coisas não melhoram nem evoluem nada ao fim de quase 10 anos.

E entristece-me deveras ver a gaiata (sim, quem nasce em 1995 não tem direito a outra qualificação) a ser escravizada, enquanto nós assistimos, como os carrascos dela.



Foi aqui que vim parar.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Meanwhile in Ergástulo - Parte Décima Segunda

Chega um raiozinho de sol e é ver os velhos desta vida a vestir camisas de manga curta, a deixar ver os seus bracinhos esquisitos, cheios de rugas e pregas, de peles descaídas e manchas de fígado, com um ou dois pêlos desirmanados a acenar em todas as direcções. Balançam-se por aí todos contentes, a achar que estão a fazer uma bela figura.

É certo que venho de um sítio onde o patronato, chegado o verão, gostava de se bambolear pela casa fora de calções e chanatas, mas isso era num sítio onde, assumida e descaradamente, as pessoas não tinham nível apesar de se acharem a cúpula da sociedade, maneiras que isto não devia causar-me espanto.

Mas causa algum, vá.



quinta-feira, 5 de julho de 2018

Not Impressed

Sabem aqueles colegas, bem, será mais aquelas colegas, advogadas, bem entendido, que falam como se estivessem na praça, sempre uma oitava acima do timbre socialmente aceitável, que parecem que os seus clientes são sempre as maiores vítimas de todos os horrores jamais perpetrados pelos arguidos, que partem do pressuposto que os advogados desses arguidos são uns criminosos iguais aos clientes que os escolheram, que têm discurso de TV Mais em fusão com CMTV, que isto dos subsídios é o que dá cabo deste país, isso e os emigrantes que vêm para cá receber o RSI, estão a ver o estilo, que só falta porem a mãozinha na cintura enquanto discursam, que são sempre as maiores das suas aldeias, com as quais é impossível chegar a acordo porque não há pinga de razoabilidade naquelas cabeças, que acham que têm uma inteligência acima da média mas que não sabem distinguir suspensão e interrupção do prazo, nem prescrição de caducidade, que têm sempre todas as doenças do mundo e mais algumas mas nunca são tão desgraçadas como os seus clientes, pobres vítimas que sofreram muito e a quem foi feito muito mal, que têm um ar de saloias novas ricas que nem a roupinha da Ferrache consegue disfarçar, sabem esta estirpe de gente que dá mau nome à Classe e que dá vergonha alheia?

Ontem, cruzei-me com uma procuradora assim.
Sem tirar nem pôr.




E é tão triste.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Meanwhile In Ergástulo - Parte Décima Primeira

Aparece-me um miúdo, com os seus 11/12 anos, à porta da minha sala e diz:

 - Olá, sou o neto do meu avô.


Uma salva de palmas para o gene da estupidez, que claramente corre no sangue desta gente e não salta geração nenhuma.

Foi aqui que vim parar.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Ai Sim?

É só a mim que há a infelicidade de calhar a desgravação de julgamento com testemunha muito sabedora, é preciso dizê-lo, mas muitíssimo gaga, tão gaga que nem sei se hei-de substituir todas as palavras ditas por reticências?

Pois, pelos vistos é só a mim, mesmo.

terça-feira, 27 de março de 2018

Ai a Porra - Volume Não-Sei-Quê

Não é que eu seja uma rapariga dada às Páscoas desta vida.
A bem da verdade, não sou NADA dada a coisa nenhuma que tenha a ver com religiosidade. A não ser que conte para este totobola o facto de enfardar lindamente as iguarias das festividades.
Conta?
Não?
Então não sou, pronto.

Adiante.
Mesmo não sendo nada dada a estas coisas, o que sabia mesmo bem e vinha mesmo a calhar era a entidade patronal oferecer o dia da Quinta-feira Santa. Já não me armaria em esquisita se nos oferecessem a tarde desse dia.
Porque, segundo consta, serviço algum está a funcionar nesse dia.
Nenhum.
Zero.
Niente.
Porra nenhuma.
E, segundo parece, é costume neste ergástulo não se trabalhar neste dia.

Mas, como as sociedades de advogados são todas iguais, situem-se na metrópole ou nos arrabaldes de Sintra, não se sabe de nada nem se comunica coisa alguma aos trabalhadores, essa ralé preguiçosa, senão na véspera.
O que é uma merda para quem, como eu, gostaria de fazer alguns planos para essa tarde. Mais que não fosse enfiar-me num qualquer centro comercial a comprar pechinchas e ovos da Páscoa. Para o puto, não para mim. Obviamente.


Será melhor esperar sentada, certo?
É que tenho uma certa tendência de chegar aos sítios e tudo o que era costume fazer-se passa a não se fazer, sob o pretexto sempre eterno do "este ano não dá". Assim, de repente, lembro-me dos prémios de final de ano, da 'ponte' do dia 31 de Dezembro, do almoço do Dia do Advogado, o jantar de Natal... Coisas boas que gostavam de nos tirar só porque sim, porque, lá está, os trabalhadores são todos uma ralé que não interessa mimar, interessa só maltratar e explorar.

Maneiras que este é mais um queixume, queixume de Páscoa que é bom para abrir o apetite.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Nonsense Talking ... Nº Qualquer Coisa

- Sabe, Dra., ontem tive um problema...
- Então?
- Ah, estava no shopping, estava com um amigo meu que me começou a dizer, ah e tal nunca roubei, queria saber como é que é... e eu deixei-me levar e...
- Foram apanhados, certo?
- Fomos e agora as lojas vão apresentar queixa...
- ... Nem sei que lhe diga... Você acabou de ser julgado num processo crime, homem!
- Pois é, Dra. Estas coisas perseguem-me, estas coisas vêm ter comigo, só me dão problemas...


Nem vale a pena tecer comentários, não é?

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Anos disto e continuo a rir-me como uma hiena ébria em plena audiência quando a testemunha afirma, muito emocionada, que a neta se tinha dirigido a ela como "a puta da velha".

Podia ter vergonha, mas envergonha-me deveras dizer que não tenho nenhuma.


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Há dias em que, por maior boa vontade que se tenha, por maior boa disposição, por maior vontade de galhofar e levar as coisas com ligeireza, não há volta a dar ao que não tem remédio possível.

Estou fadada a caminhar sozinha e sem amigos nesta casota do inferno perdida no meio da metrópole.

Hoje, perdi mais uma. Toda a gente a partir, nada fica para trás.

Enfim.
Amanhã será melhor, com certeza.