Sou a única avestruz neste prédio a vir trabalhar à Segunda-Feira de Carnaval.
Tudo porque o patronato é fuinha
Foi aqui que vim parar.
Dos Incidentes, Pareceres e Vicissitudes várias. Porque "Quando a ralé se põe a pensar, está tudo perdido", lá dizia Voltaire...
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segunda-feira, 4 de março de 2019
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
Meanwhile in Ergástulo - Parte Décima Sétima
O patronato nesta casa anda louco, como é possível concluir do estudo superficial de episódios recentes.
Hoje, aquele que manda mais chamou-me para me entregar um processo que queria que tratasse.
Um processo cheio de merda, para falar bem e depressa, com mais pontas soltas que cabelos meus ao vento, com documentos desirmanados e porcaria tanta que dava para encher uma fossa séptica.
No entanto, o sentido de humor daquela múmia que habitualmente nem existe, estava em alta.
Com um sorriso desmesurado, passou-se a pasta para a mão, dizendo:
- Toma, desembrulha!, enquanto mandava para o ar a sua gargalhada característica.
Foi aqui que vim parar.
Hoje, aquele que manda mais chamou-me para me entregar um processo que queria que tratasse.
Um processo cheio de merda, para falar bem e depressa, com mais pontas soltas que cabelos meus ao vento, com documentos desirmanados e porcaria tanta que dava para encher uma fossa séptica.
No entanto, o sentido de humor daquela múmia que habitualmente nem existe, estava em alta.
Com um sorriso desmesurado, passou-se a pasta para a mão, dizendo:
- Toma, desembrulha!, enquanto mandava para o ar a sua gargalhada característica.
Foi aqui que vim parar.
Meanwhile in Esgástulo - Parte Décima Sexta
Aqui há dias, estava todo o povão desta casa a almoçar na sala da copa quando entra a segunda figura do patronato.
- O que é que estão a comer, que cheira tão bem?, grita para o ar com ar de louco demasiado bem disposto, como se tivesse acabado de empoar o nariz.
E vá de enfiar - e isto é literal, não é exagero - o nariz em cada um dos pratos, tecendo todo o tipo de comentários agradáveis sobre as iguarias em cima da mesa.
Antes de ir embora, completamente estouvado pelo próprio entusiasmo, remata: Essa comida que vocês trazem, é toda confeccionada domesticamente, não é? (Não, filho, todos os dias vamos buscar comida à fábrica, a confecção é puramente industrial.)
Voltámos, portanto, ao tempo das girafas em lingerie, ficando todos aturdidos com a bizarria que acabámos de assistir.
Foi aqui que vim parar.
- O que é que estão a comer, que cheira tão bem?, grita para o ar com ar de louco demasiado bem disposto, como se tivesse acabado de empoar o nariz.
E vá de enfiar - e isto é literal, não é exagero - o nariz em cada um dos pratos, tecendo todo o tipo de comentários agradáveis sobre as iguarias em cima da mesa.
Antes de ir embora, completamente estouvado pelo próprio entusiasmo, remata: Essa comida que vocês trazem, é toda confeccionada domesticamente, não é? (Não, filho, todos os dias vamos buscar comida à fábrica, a confecção é puramente industrial.)
Voltámos, portanto, ao tempo das girafas em lingerie, ficando todos aturdidos com a bizarria que acabámos de assistir.
Foi aqui que vim parar.
terça-feira, 27 de novembro de 2018
Meanwhile in Ergástulo - Parte Décima Quarta
Quando os meninos se portam mal, são castigados em conformidade.
Da primeira vez que o patrãozinho deu pela ficha da chaleira enfiada na tomada, inventou um exercício de simulação de incêndio e fez-nos descer 6 lanços de escadas a pé. Tudo para tomarmos consciência que podia haver um incêndio por causa da mania de deixar as fichas nas tomadas.
Como não foi ouvido, tomou esta medida muito madura e extremamente eficaz.
Foi aqui que vim parar.
quarta-feira, 7 de novembro de 2018
Das Bizarrias da Profissão
Tenho para mim que coisas inéditas ou simplesmente parvas que se passam na Judicatura só se passam comigo.
É apenas uma sensação que tenho, vá, mais que não seja porque não oiço ninguém comentar que lhes sucedem factos tão estranhos no seu dia-a-dia profissional como os que às vezes sucedem à minha pessoa.
Por exemplo, na segunda-feira passada, uma qualquer secretaria de Tribunal de uma terra macaca que não vale a pena mencionar qual é, mas que fica ali para a linha chique e que em tempos já foi governada por um senhor condenado por práticas pouco lavadas no que a impostos diz respeito, contactou com a minha pessoa, inquirindo-me, directa e desavergonhadamente, se o julgamento, agendado para dali a dois dias e no qual represento o autor, sempre se iria realizar e se não quereriam já as partes chegar a acordo.
Absolutamente abismada com a questão que me estava a ser colocada, ainda balbuciei umas coisas incoerentes, tipo babuína que no fundo sou, mas arranjei forma de perguntar por que motivo estava o Tribunal a fazer esta pergunta dois dias antes do julgamento.
É que normalmente, e o meu público que é quase todo ele profissional forense não me deixará mentir, os funcionários só rondam as partes como se fossem abelhas de volta do pote do mel à procura de um acordo quando já se fez a chamada e estamos a, vá, dez minutos de entrar para a sala.
É verdade que alguns funcionários são mais chatos que outros, também é verdade que alguns juízes são mais insistentes que outros na busca do acordo.
Mas este desplante todo não é costumeiro.
Maneiras que a resposta que obtive à minha ingénua pergunta "porque é que me está a telefonar com perguntas de merda se podemos resolver isto daqui a 48 horas?" foi: "porque a sra. dra. Juiz quer que a gente pergunte".
Face a isto, não tive coragem para mandar ninguém bardamerda, como me estava grandemente a apetecer.
Ou melhor, o que deveria ter dito era que esperasse pelo dia da diligência, calona da gaita, que logo se via se havia acordo ou não.
Bem sabemos que fazer julgamentos é cansativo, há que os preparar, ler as peças, estudar, tirar notas, fazer o trabalhinho de casa, no fundo. Já para não falar das deslocações, dos Tribunais no fim do mundo, dos cafés de merda que gravitam em volta destes edifícios, que encontrar um café decente nas imediações dos Tribunais é uma tarefa difícil, mais a conversa de merda dos clientes, a conversa de merda dos colegas, a conversa de merda de toda a gente, os tempos mortos, as intermináveis esperas. Para quem, depois, ainda tem que fazer a sentença, estudar de novo, rever o que foi dito, fundamentar a sentença ainda é pior, porque o trabalho continua muito depois de ter acabado o julgamento.
Não obstante, acho que, por menos por ora, não se apontam armas às cabeças de ninguém para seguirem a carreira da magistratura e, em primeira e última análise, só segue essa vida quem quer, portanto... vá, temos pena.
Mal comparando, esta chamada supersónica é como se fosse a um qualquer supermercado e ainda antes de ter feito as compras já estar numa caixa a pagar.
Onde é que já se viu esta pouca vergonha?
É apenas uma sensação que tenho, vá, mais que não seja porque não oiço ninguém comentar que lhes sucedem factos tão estranhos no seu dia-a-dia profissional como os que às vezes sucedem à minha pessoa.
Por exemplo, na segunda-feira passada, uma qualquer secretaria de Tribunal de uma terra macaca que não vale a pena mencionar qual é, mas que fica ali para a linha chique e que em tempos já foi governada por um senhor condenado por práticas pouco lavadas no que a impostos diz respeito, contactou com a minha pessoa, inquirindo-me, directa e desavergonhadamente, se o julgamento, agendado para dali a dois dias e no qual represento o autor, sempre se iria realizar e se não quereriam já as partes chegar a acordo.
Absolutamente abismada com a questão que me estava a ser colocada, ainda balbuciei umas coisas incoerentes, tipo babuína que no fundo sou, mas arranjei forma de perguntar por que motivo estava o Tribunal a fazer esta pergunta dois dias antes do julgamento.
É que normalmente, e o meu público que é quase todo ele profissional forense não me deixará mentir, os funcionários só rondam as partes como se fossem abelhas de volta do pote do mel à procura de um acordo quando já se fez a chamada e estamos a, vá, dez minutos de entrar para a sala.
É verdade que alguns funcionários são mais chatos que outros, também é verdade que alguns juízes são mais insistentes que outros na busca do acordo.
Mas este desplante todo não é costumeiro.
Maneiras que a resposta que obtive à minha ingénua pergunta "porque é que me está a telefonar com perguntas de merda se podemos resolver isto daqui a 48 horas?" foi: "porque a sra. dra. Juiz quer que a gente pergunte".
Face a isto, não tive coragem para mandar ninguém bardamerda, como me estava grandemente a apetecer.
Ou melhor, o que deveria ter dito era que esperasse pelo dia da diligência, calona da gaita, que logo se via se havia acordo ou não.
Bem sabemos que fazer julgamentos é cansativo, há que os preparar, ler as peças, estudar, tirar notas, fazer o trabalhinho de casa, no fundo. Já para não falar das deslocações, dos Tribunais no fim do mundo, dos cafés de merda que gravitam em volta destes edifícios, que encontrar um café decente nas imediações dos Tribunais é uma tarefa difícil, mais a conversa de merda dos clientes, a conversa de merda dos colegas, a conversa de merda de toda a gente, os tempos mortos, as intermináveis esperas. Para quem, depois, ainda tem que fazer a sentença, estudar de novo, rever o que foi dito, fundamentar a sentença ainda é pior, porque o trabalho continua muito depois de ter acabado o julgamento.
Não obstante, acho que, por menos por ora, não se apontam armas às cabeças de ninguém para seguirem a carreira da magistratura e, em primeira e última análise, só segue essa vida quem quer, portanto... vá, temos pena.
Mal comparando, esta chamada supersónica é como se fosse a um qualquer supermercado e ainda antes de ter feito as compras já estar numa caixa a pagar.
Onde é que já se viu esta pouca vergonha?
quarta-feira, 12 de setembro de 2018
Meanwhile in Ergástulo - Parte Décima Segunda
Não contentes com o facto não haver ninguém para passar a vida na rua a fazer coisas que os outros não querem fazer, arranjou-se uma estagiária para o estaminé.
Estagiária é como quem diz, uma moça que, desgraçada, está a tentar acabar o curso na faculdade e vem para aqui fazer uma perninha.
Perninha é como quem diz ajuda das grandes, que esta gente é toda barriguda (como se diz na minha terra) e não quer andar a gastar solas dos sapatos na rua a saltar de conservatória em conservatória, de serviço de finanças em serviço de finanças, de SEF em SEF ou de uma coisa qualquer quando lá pode ir a criadagem.
Desta vez, criadagem não é como quem diz, é mesmo literal, porque eu bem oiço a pobre criatura a destruir quilos de papel na sala ao lado da minha.
Ou então, não a vejo de todo e já sei que está na rua em serviço.
Portanto, foi para isto que se contratou uma estagiária, para destruir papel e andar à chapa do sol a correr de um lado para o outro a pedir mais papel nas repartições competentes.
A velha que em mim habita tem vontade de dizer, olha que coisa, também tu nos primeiros anos não fazias mais nada senão andar na rua a fazer os recados dos outros.
Ao que responde a jovem que também cá mora, e que felicidade é ver que as coisas não melhoram nem evoluem nada ao fim de quase 10 anos.
E entristece-me deveras ver a gaiata (sim, quem nasce em 1995 não tem direito a outra qualificação) a ser escravizada, enquanto nós assistimos, como os carrascos dela.
Foi aqui que vim parar.
Estagiária é como quem diz, uma moça que, desgraçada, está a tentar acabar o curso na faculdade e vem para aqui fazer uma perninha.
Perninha é como quem diz ajuda das grandes, que esta gente é toda barriguda (como se diz na minha terra) e não quer andar a gastar solas dos sapatos na rua a saltar de conservatória em conservatória, de serviço de finanças em serviço de finanças, de SEF em SEF ou de uma coisa qualquer quando lá pode ir a criadagem.
Desta vez, criadagem não é como quem diz, é mesmo literal, porque eu bem oiço a pobre criatura a destruir quilos de papel na sala ao lado da minha.
Ou então, não a vejo de todo e já sei que está na rua em serviço.
Portanto, foi para isto que se contratou uma estagiária, para destruir papel e andar à chapa do sol a correr de um lado para o outro a pedir mais papel nas repartições competentes.
A velha que em mim habita tem vontade de dizer, olha que coisa, também tu nos primeiros anos não fazias mais nada senão andar na rua a fazer os recados dos outros.
Ao que responde a jovem que também cá mora, e que felicidade é ver que as coisas não melhoram nem evoluem nada ao fim de quase 10 anos.
E entristece-me deveras ver a gaiata (sim, quem nasce em 1995 não tem direito a outra qualificação) a ser escravizada, enquanto nós assistimos, como os carrascos dela.
Foi aqui que vim parar.
sexta-feira, 6 de julho de 2018
Meanwhile in Ergástulo - Parte Décima Segunda
Chega um raiozinho de sol e é ver os velhos desta vida a vestir camisas de manga curta, a deixar ver os seus bracinhos esquisitos, cheios de rugas e pregas, de peles descaídas e manchas de fígado, com um ou dois pêlos desirmanados a acenar em todas as direcções. Balançam-se por aí todos contentes, a achar que estão a fazer uma bela figura.
É certo que venho de um sítio onde o patronato, chegado o verão, gostava de se bambolear pela casa fora de calções e chanatas, mas isso era num sítio onde, assumida e descaradamente, as pessoas não tinham nível apesar de se acharem a cúpula da sociedade, maneiras que isto não devia causar-me espanto.
Mas causa algum, vá.
É certo que venho de um sítio onde o patronato, chegado o verão, gostava de se bambolear pela casa fora de calções e chanatas, mas isso era num sítio onde, assumida e descaradamente, as pessoas não tinham nível apesar de se acharem a cúpula da sociedade, maneiras que isto não devia causar-me espanto.
Mas causa algum, vá.
quinta-feira, 5 de julho de 2018
Not Impressed
Sabem aqueles colegas, bem, será mais aquelas colegas, advogadas, bem entendido, que falam como se estivessem na praça, sempre uma oitava acima do timbre socialmente aceitável, que parecem que os seus clientes são sempre as maiores vítimas de todos os horrores jamais perpetrados pelos arguidos, que partem do pressuposto que os advogados desses arguidos são uns criminosos iguais aos clientes que os escolheram, que têm discurso de TV Mais em fusão com CMTV, que isto dos subsídios é o que dá cabo deste país, isso e os emigrantes que vêm para cá receber o RSI, estão a ver o estilo, que só falta porem a mãozinha na cintura enquanto discursam, que são sempre as maiores das suas aldeias, com as quais é impossível chegar a acordo porque não há pinga de razoabilidade naquelas cabeças, que acham que têm uma inteligência acima da média mas que não sabem distinguir suspensão e interrupção do prazo, nem prescrição de caducidade, que têm sempre todas as doenças do mundo e mais algumas mas nunca são tão desgraçadas como os seus clientes, pobres vítimas que sofreram muito e a quem foi feito muito mal, que têm um ar de saloias novas ricas que nem a roupinha da Ferrache consegue disfarçar, sabem esta estirpe de gente que dá mau nome à Classe e que dá vergonha alheia?
Ontem, cruzei-me com uma procuradora assim.
Sem tirar nem pôr.
E é tão triste.
Ontem, cruzei-me com uma procuradora assim.
Sem tirar nem pôr.
E é tão triste.
segunda-feira, 25 de junho de 2018
Meanwhile In Ergástulo - Parte Décima Primeira
Aparece-me um miúdo, com os seus 11/12 anos, à porta da minha sala e diz:
- Olá, sou o neto do meu avô.
Uma salva de palmas para o gene da estupidez, que claramente corre no sangue desta gente e não salta geração nenhuma.
Foi aqui que vim parar.
sexta-feira, 4 de maio de 2018
Ai Sim?
É só a mim que há a infelicidade de calhar a desgravação de julgamento com testemunha muito sabedora, é preciso dizê-lo, mas muitíssimo gaga, tão gaga que nem sei se hei-de substituir todas as palavras ditas por reticências?
Pois, pelos vistos é só a mim, mesmo.
Pois, pelos vistos é só a mim, mesmo.
terça-feira, 27 de março de 2018
Ai a Porra - Volume Não-Sei-Quê
Não é que eu seja uma rapariga dada às Páscoas desta vida.
A bem da verdade, não sou NADA dada a coisa nenhuma que tenha a ver com religiosidade. A não ser que conte para este totobola o facto de enfardar lindamente as iguarias das festividades.
Conta?
Não?
Então não sou, pronto.
Adiante.
Mesmo não sendo nada dada a estas coisas, o que sabia mesmo bem e vinha mesmo a calhar era a entidade patronal oferecer o dia da Quinta-feira Santa. Já não me armaria em esquisita se nos oferecessem a tarde desse dia.
Porque, segundo consta, serviço algum está a funcionar nesse dia.
Nenhum.
Zero.
Niente.
Porra nenhuma.
E, segundo parece, é costume neste ergástulo não se trabalhar neste dia.
Mas, como as sociedades de advogados são todas iguais, situem-se na metrópole ou nos arrabaldes de Sintra, não se sabe de nada nem se comunica coisa alguma aos trabalhadores, essa ralé preguiçosa, senão na véspera.
O que é uma merda para quem, como eu, gostaria de fazer alguns planos para essa tarde. Mais que não fosse enfiar-me num qualquer centro comercial a comprar pechinchas e ovos da Páscoa. Para o puto, não para mim. Obviamente.
Será melhor esperar sentada, certo?
É que tenho uma certa tendência de chegar aos sítios e tudo o que era costume fazer-se passa a não se fazer, sob o pretexto sempre eterno do "este ano não dá". Assim, de repente, lembro-me dos prémios de final de ano, da 'ponte' do dia 31 de Dezembro, do almoço do Dia do Advogado, o jantar de Natal... Coisas boas que gostavam de nos tirar só porque sim, porque, lá está, os trabalhadores são todos uma ralé que não interessa mimar, interessa só maltratar e explorar.
Maneiras que este é mais um queixume, queixume de Páscoa que é bom para abrir o apetite.
A bem da verdade, não sou NADA dada a coisa nenhuma que tenha a ver com religiosidade. A não ser que conte para este totobola o facto de enfardar lindamente as iguarias das festividades.
Conta?
Não?
Então não sou, pronto.
Adiante.
Mesmo não sendo nada dada a estas coisas, o que sabia mesmo bem e vinha mesmo a calhar era a entidade patronal oferecer o dia da Quinta-feira Santa. Já não me armaria em esquisita se nos oferecessem a tarde desse dia.
Porque, segundo consta, serviço algum está a funcionar nesse dia.
Nenhum.
Zero.
Niente.
Porra nenhuma.
E, segundo parece, é costume neste ergástulo não se trabalhar neste dia.
Mas, como as sociedades de advogados são todas iguais, situem-se na metrópole ou nos arrabaldes de Sintra, não se sabe de nada nem se comunica coisa alguma aos trabalhadores, essa ralé preguiçosa, senão na véspera.
O que é uma merda para quem, como eu, gostaria de fazer alguns planos para essa tarde. Mais que não fosse enfiar-me num qualquer centro comercial a comprar pechinchas e ovos da Páscoa. Para o puto, não para mim. Obviamente.
Será melhor esperar sentada, certo?
É que tenho uma certa tendência de chegar aos sítios e tudo o que era costume fazer-se passa a não se fazer, sob o pretexto sempre eterno do "este ano não dá". Assim, de repente, lembro-me dos prémios de final de ano, da 'ponte' do dia 31 de Dezembro, do almoço do Dia do Advogado, o jantar de Natal... Coisas boas que gostavam de nos tirar só porque sim, porque, lá está, os trabalhadores são todos uma ralé que não interessa mimar, interessa só maltratar e explorar.
Maneiras que este é mais um queixume, queixume de Páscoa que é bom para abrir o apetite.
quinta-feira, 22 de março de 2018
Nonsense Talking ... Nº Qualquer Coisa
- Sabe, Dra., ontem tive um problema...
- Então?
- Ah, estava no shopping, estava com um amigo meu que me começou a dizer, ah e tal nunca roubei, queria saber como é que é... e eu deixei-me levar e...
- Foram apanhados, certo?
- Fomos e agora as lojas vão apresentar queixa...
- ... Nem sei que lhe diga... Você acabou de ser julgado num processo crime, homem!
- Pois é, Dra. Estas coisas perseguem-me, estas coisas vêm ter comigo, só me dão problemas...
Nem vale a pena tecer comentários, não é?
- Então?
- Ah, estava no shopping, estava com um amigo meu que me começou a dizer, ah e tal nunca roubei, queria saber como é que é... e eu deixei-me levar e...
- Foram apanhados, certo?
- Fomos e agora as lojas vão apresentar queixa...
- ... Nem sei que lhe diga... Você acabou de ser julgado num processo crime, homem!
- Pois é, Dra. Estas coisas perseguem-me, estas coisas vêm ter comigo, só me dão problemas...
Nem vale a pena tecer comentários, não é?
quinta-feira, 11 de janeiro de 2018
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
Há dias em que, por maior boa vontade que se tenha, por maior boa disposição, por maior vontade de galhofar e levar as coisas com ligeireza, não há volta a dar ao que não tem remédio possível.
Estou fadada a caminhar sozinha e sem amigos nesta casota do inferno perdida no meio da metrópole.
Hoje, perdi mais uma. Toda a gente a partir, nada fica para trás.
Enfim.
Amanhã será melhor, com certeza.
terça-feira, 19 de dezembro de 2017
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
Meanwhile in Ergástulo - Parte Oitava
Paremos dois minutos para contemplar a seguinte factualidade: afinal sempre se realizará convívio de Natal para os habitantes desta casota na metrópole.
Ninguém esperava, dado que já se sabe que esta gente é muito pouco dada a sorrisos, quanto mais a convívios. Até pode ser que seja uma coisa boa, pensou logo a minha pessoa, pode ser que anime o espírito desta gente cinzenta.
Toda a gente recebeu, portanto, um email com o convite, anunciando que dia 27 do corrente mês faríamos o almoço com todos para celebrar o Natal.
Contemplemos, agora, o facto de nesta casa se celebrar o Natal depois de dia 25 de Dezembro.
Foi aqui que vim parar.
Ninguém esperava, dado que já se sabe que esta gente é muito pouco dada a sorrisos, quanto mais a convívios. Até pode ser que seja uma coisa boa, pensou logo a minha pessoa, pode ser que anime o espírito desta gente cinzenta.
Toda a gente recebeu, portanto, um email com o convite, anunciando que dia 27 do corrente mês faríamos o almoço com todos para celebrar o Natal.
Contemplemos, agora, o facto de nesta casa se celebrar o Natal depois de dia 25 de Dezembro.
Foi aqui que vim parar.
terça-feira, 21 de novembro de 2017
Meanwhile in Ergástulo - Parte Sétima
O meu patrão é tão velho, mas tão velho que quando se refere ao subsídio de Natal, diz que é uma lembrança.
Tal como a minha Avó dizia, lembrança de Natal.
Só faltava dizer que é pouco mas é de boa vontade, como se diz lá para aquelas terras de Sintra.
Estou rodeada de avestruzes ébrias.
Tal como a minha Avó dizia, lembrança de Natal.
Só faltava dizer que é pouco mas é de boa vontade, como se diz lá para aquelas terras de Sintra.
Estou rodeada de avestruzes ébrias.
segunda-feira, 4 de setembro de 2017
Meanwhile in Ergástulo - Parte Sexta
Nesta casa, ninguém vê nada, ninguém quer saber de nada, ninguém está preocupado com coisa nenhuma, nem sem os trabalhadores têm todas as condições que necessitam para trabalhar.
Mas durante o fim-de-semana põem-lhes teclados novos nos computadores, já que os velhos têm teclas que não funcionam e outras com vida própria. E isto sem receberem nenhuma dica nem queixinhas nem nada do género.
O que quer dizer que vieram para aqui espiolhar e acharam que não o poderiam fazer convenientemente com um teclado que não funciona.
De outra forma, como poderiam eles bisbilhotar as minha merdas e perceber que não ando a traficar informações nem clientes às escondidas?
Mas durante o fim-de-semana põem-lhes teclados novos nos computadores, já que os velhos têm teclas que não funcionam e outras com vida própria. E isto sem receberem nenhuma dica nem queixinhas nem nada do género.
O que quer dizer que vieram para aqui espiolhar e acharam que não o poderiam fazer convenientemente com um teclado que não funciona.
De outra forma, como poderiam eles bisbilhotar as minha merdas e perceber que não ando a traficar informações nem clientes às escondidas?
terça-feira, 27 de junho de 2017
Meanwhile in Ergástulo - Parte Primeira
Esta é uma casa esquisita, é ponto assente. Uma casa estranha, cheia de pessoas bizarras com comportamentos fora do normal, que não se encaixa em coisa alguma antes vista.
Tendo esta informação presente - e bem presente - é preciso começar por referir que o chefe da aldeia dos macacos, ele próprio um gorila muito velho, não faz nenhum.
Nada. Zero. Niente. Nicles. Ponta. De. Um. Chaveiro. Um boi. Nada, porra, mesmo nada.
Chega de manhã, anda a cirandar pelas salas de toda a gente a perguntar o que é que se está a fazer, o que é que há pendente, manda uns bitaites e depois vai para a sua salinha, onde se entretém a abrir e fechar os armários muitas vezes (aparentemente é uma actividade que faz muito bem aos ossos) e depois senta-se na sua poltrona a olhar para o vazio.
Isto é verídico, não é um queixume engraçado com umas piadas parvas cá pelo meio, como é meu apanágio. É mesmo verdade. Tenho visto isto todos os dias.
O senhor fica uma manhã, uma tarde, um dia inteiro sentado no sofá a olhar em frente, admirando a beleza da cor das paredes. Ao meio dia e dez vai almoçar, que a terceira idade não é digna desse nome se não almoçar ao meio dia e dez. Leva três ou quatro discípulos fiéis, os outros não, que a ordem não é rica e não há dinheiro para gastar em almoços para a ralé.
O seu telefone toca muitas vezes; imagino que seja a mulher a perguntar-lhe se quer sopa de feijão para o jantar. Ou a perguntar-lhe se sabe onde pôs as chaves da arrecadação que precisa de ir lá buscar o regador e não sabe onde as pôs. Ou a dizer-lhe que não se atrase que hoje quer ver a Gala da Solidariedade dos Incêndios.
Isto é só o que vejo. Faria se me pusesse a escrever sobre aquilo que sei... (tendo esse conhecimento sido adquirido na pendência de coscuvilhice fora do horário de expediente). Mais tarde, talvez.
Por agora, meditemos apenas na introdução do texto que é, no fundo, a sua conclusão: este gajo não faz um cu.
Agora que já interiorizámos isto nas nossas cabecinhas, demos um passo em frente e perguntemo-nos como é que se gere uma sociedade desta dimensão sem mexer uma palha...
Já se está mesmo a ver a resposta, não é?
Tendo esta informação presente - e bem presente - é preciso começar por referir que o chefe da aldeia dos macacos, ele próprio um gorila muito velho, não faz nenhum.
Nada. Zero. Niente. Nicles. Ponta. De. Um. Chaveiro. Um boi. Nada, porra, mesmo nada.
Chega de manhã, anda a cirandar pelas salas de toda a gente a perguntar o que é que se está a fazer, o que é que há pendente, manda uns bitaites e depois vai para a sua salinha, onde se entretém a abrir e fechar os armários muitas vezes (aparentemente é uma actividade que faz muito bem aos ossos) e depois senta-se na sua poltrona a olhar para o vazio.
Isto é verídico, não é um queixume engraçado com umas piadas parvas cá pelo meio, como é meu apanágio. É mesmo verdade. Tenho visto isto todos os dias.
O senhor fica uma manhã, uma tarde, um dia inteiro sentado no sofá a olhar em frente, admirando a beleza da cor das paredes. Ao meio dia e dez vai almoçar, que a terceira idade não é digna desse nome se não almoçar ao meio dia e dez. Leva três ou quatro discípulos fiéis, os outros não, que a ordem não é rica e não há dinheiro para gastar em almoços para a ralé.
O seu telefone toca muitas vezes; imagino que seja a mulher a perguntar-lhe se quer sopa de feijão para o jantar. Ou a perguntar-lhe se sabe onde pôs as chaves da arrecadação que precisa de ir lá buscar o regador e não sabe onde as pôs. Ou a dizer-lhe que não se atrase que hoje quer ver a Gala da Solidariedade dos Incêndios.
Isto é só o que vejo. Faria se me pusesse a escrever sobre aquilo que sei... (tendo esse conhecimento sido adquirido na pendência de coscuvilhice fora do horário de expediente). Mais tarde, talvez.
Por agora, meditemos apenas na introdução do texto que é, no fundo, a sua conclusão: este gajo não faz um cu.
Agora que já interiorizámos isto nas nossas cabecinhas, demos um passo em frente e perguntemo-nos como é que se gere uma sociedade desta dimensão sem mexer uma palha...
Já se está mesmo a ver a resposta, não é?
segunda-feira, 19 de junho de 2017
Update
Por aqui, na terra das girafas em lingerie, começa-se a conhecer os cantos à casa.
Não obstante ter-me perdido duas vezes numa ida à casa de banho, até é um escritório confortável para se trabalhar.
Aqui impera essencialmente a regra do silêncio: não se faz barulho por coisa nenhuma. Até os telefones tocam baixinho e com toques do mais discreto possível.
Da primeira vez que o meu telefone tocou, ia jurar que havia uma fuga no ar condicionado, porque ouvia um assobio estanho e ininterrupto que não sabia a origem. O chão é todo alcatifado, abafando todos os passos, mesmo daquelas que calçam tamancos barulhentos. O que é óptimo para quem gosta de borregar nas redes sociais; quando se dá por isso tem-se a entidade patronal a cheirar e nem se ouviu a pessoínha entrar.
Agora que já se passaram alguns dias, começa a estranheza a ir embora e começam a criar-se laços suficientes para as conversas de café, à hora do almoço. Que é como quem diz, vamos desancar nos bodes que mandam nisto.
Percebo - não sem algum alívio - que trabalhar aqui ou naquela comarca do demónio, naquela casinha cheia de monstros civilistas - ou, a bem da verdade, noutra qualquer - acaba por ser mais ou menos a mesma coisa. A única diferença é que quem manda aqui tem mais a mania.
O que não deixa de ser engraçado.
Aguardam-se tempos de grande e bom queixume, estou a prever.
Não obstante ter-me perdido duas vezes numa ida à casa de banho, até é um escritório confortável para se trabalhar.
Aqui impera essencialmente a regra do silêncio: não se faz barulho por coisa nenhuma. Até os telefones tocam baixinho e com toques do mais discreto possível.
Da primeira vez que o meu telefone tocou, ia jurar que havia uma fuga no ar condicionado, porque ouvia um assobio estanho e ininterrupto que não sabia a origem. O chão é todo alcatifado, abafando todos os passos, mesmo daquelas que calçam tamancos barulhentos. O que é óptimo para quem gosta de borregar nas redes sociais; quando se dá por isso tem-se a entidade patronal a cheirar e nem se ouviu a pessoínha entrar.
Agora que já se passaram alguns dias, começa a estranheza a ir embora e começam a criar-se laços suficientes para as conversas de café, à hora do almoço. Que é como quem diz, vamos desancar nos bodes que mandam nisto.
Percebo - não sem algum alívio - que trabalhar aqui ou naquela comarca do demónio, naquela casinha cheia de monstros civilistas - ou, a bem da verdade, noutra qualquer - acaba por ser mais ou menos a mesma coisa. A única diferença é que quem manda aqui tem mais a mania.
O que não deixa de ser engraçado.
Aguardam-se tempos de grande e bom queixume, estou a prever.
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